“Os Miseráveis” recebe nova versão para os cinemas

Um dos maiores clássicos da literatura mundial volta às telonas em 2012

Pedro Henrique Leal
Publicado 03/01/2012 às 19:45:28 - Atualizado em 03/01/2012 às 14:56:06

Sucesso no mundo todo, “Os Miseráveis” já foi adaptado para quadrinhos, cinema, animação e teatro, com na montagem musical de Claude-Michel Schönberg (Divulgação)
Jean Valjean é um homem temido – recém liberado da prisão, é visto com desconfiança pela população. Desconfiança esta que lhe impede de conseguir um emprego, moradia, ou sequer uma estadia de uma noite após 19 anos preso. Seu crime? Ter quebrado uma janela e roubado um pedaço de pão para alimentar as irmãs. É com essa tragédia – ainda tão atual – que começa o clássico da literatura francesa “Os Miseráveis”, considerado por muitos críticos como uma das mais importantes obras da literatura mundial. E que este ano recebe uma nova adaptação para o cinema.

Publicado originalmente em 1862, o clássico de Victor Hugo traz um retrato extremamente complexo e detalhado da vida e das injustiças na sociedade francesa entre 1817 e 1835. E no mesmo ano em que era lançado em Paris, era publicado em edições traduzidas para o português, alemão, inglês, russo, italiano e espanhol.
Enfrentando a rejeição da sociedade, Valjean rasga seu passaporte e parte em uma longa jornada de redenção, se estabelecendo como um grande filantropo ao mesmo tempo que se torna um foragido da justiça. “Os Miseráveis” – ou Lês Miserábles, para os puristas – trata de um dos temas mais complexos a literatura e a sociedade: a redenção e a desigualdade.

Além de Jean Valjean, a trama acompanha também outras vidas praguejadas pelo sofrimento e a injustiça: do obcecado investigador Javért, determinado a levar Jean Valjean a justiça a qualquer custo, ao jovem e apaixonado estudante Marius, envolvido acidentalmente com grupos revolucionários. Da pobre Fantine, condenada a miséria e tratada como uma prostituta por ter tido uma filha antes do casamento, largada aos cuidados do ganancioso e mesquinho Thenardiér, levado a falência após ter a menina “abduzida” por Valjean, cumprindo uma promessa. E é claro, a pequena Cosette, criada por Jean Valjean durante seu refúgio em um convento em Paris.

Sofrimento, amargura e reviravoltas cercam estes e outros personagens, vidas entrelaçadas em mais detalhes do que aparentam, enquanto Victor Hugo conta não apenas as suas histórias, mas também detalhes sobre o ambiente parisiense, sobre a batalha de Waterloo, a sociedade francesa, enquanto discorre sobre política, religião, moralidade, redenção e as diferentes manifestações de amor.

Longa história no cinema e no teatro

Além da adaptação que estréia no final deste ano, estrelando Hugh Jackman como Jean Valjean, Russel Crowe com o Inspetor Javert, e Sacha Baron Cohen como o senhor Thenardier, “Os Miseráveis” teve numerosas adaptações teatrais, musicais e cinematográficas. De fato, o filme com previsão de estréia para dezembro é a 51ª adaptação em vídeo da trama, isso descontando-se animações.

No cinema e na televisão já foram quase Desde adaptações fiéis, como o francês “Lês Miserables”, de 1972, com Georges Geret no papel principal, e a adaptação hollywoodiana de 1998, com Liam Neeson como Jean Valjean, Claire Danes como Cosette e Geoffrey Rush como o inspetor Javert, até recontagens em ambientes diferentes do original. Caso da adaptação francesa de 1995, que reconta a trama durante a primeira Guerra mundial, através de um homem que vê em sua vida um paralelo com o clássico de Victor Hugo, e do japonês Kiyojinden, de 1938.

Também marcou presença na teledramaturgia brasileira, com a novela “Os Miseráveis”, de 1967, pela TV Bandeirantes, adaptando de forma fiel o texto literário. Mas fora do formato literário, é no palco que a trama fez mais sucesso, com o musical de Claude-Michel Schönberg, com múltiplas produções desde sua estréia em 1980. E é esta adaptação que serve de base para o novo filme, cujas filmagens começam em fevereiro.

Sobre o autor

Um dos mais amados escritores da França, Victor Hugo retrata de forma comovente a injustiça na sociedade francesa no século XIX (Reprodução)
Considerado um dos maiores, se não o maior escritor francês, Victor-Marie Hugo foi poeta, dramaturgo, estadista, artista visual e ativista pelos direitos humanos, gozando de grande popularidade em seu país de origem, e de imenso renome nos círculos literários de todo o mundo.

De inicio um grande defensor da monarquia, ao longo da vida mudou de posição, passando a defesa dos ideais da República da França, de Igualdade, Liberdade e Fraternidade. Embora seja mais conhecido na França como poeta e estadista, fora do país de origem sua fama vem de seus dois grandes romances: “Os Miseráveis” e “O Corcunda de Notre Dame” – dois dos mais notórios exemplares do movimento romântico na literatura francesa.

Victor Hugo faleceu de causas naturais em maio de 1885, aos 83 anos. Sua morte causou grande comoção nacional – como estadista e ativista, ajudou a moldar a terceira república e a democracia francesa. Mais de dois milhões de pessoas se juntaram a sua procissão funerária, do Arco do Triunfo até o Panteón, onde divide uma cripta com outros dois luminares da literatura francesa – Emile Zola e Alexandre Dumas. Na maioria das cidades francesas, existem ruas, avenidas ou parques com seu nome.
Como testamento, deixou apenas cinco frases curtas: “Eu deixo 50 mil francos aos pobres. Quero ser velado em sua honra. Rejeito orações funerárias de todas as igrejas. Imploro por uma oração por todas as almas. Acredito em Deus”.


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