
- Colombo pretende aperfeiçoar atuação das SDRs (Foto: James Tavares/Secom)
A vitória em primeiro turno nas eleições de 2010 e a ampla maioria na Assembleia Legislativa garantiram ao governador Raimundo Colombo um primeiro ano à frente do Executivo estadual relativamente calmo. Mas, segundo ele mesmo afirma, com muito aprendizado e muitos desafios. Colombo abriu seu gabinete para receber as jornalistas Siliana Dalla Costa, do Diário da Cidade (Itajaí), Andréa Leonora, editora da Coluna Pelo Estado, Régis Cristiano, do Hora do Sul (Criciúma), e Romeu Scirea Filho, da Folha Regional (Xanxerê), representando a rede formada pelos veículos da Associação dos Diários do Interior (ADI-SC)/Central de Diários/Central de Notícias Regionais (CNR-SC). Falou sobre 2011 e o que espera de 2012. Sobre governo federal e PSD. E mais uma vez destacou que quer realizar um governo mais próximo das pessoas.
[PeloEstado] - Qual a sua estratégia para conduzir o primeiro ano de mandato?
Raimundo Colombo - A nossa filosofia nesse primeiro período foi primeiro conhecer o governo. Parece óbvio, mas se você não se dedicar a isso você erra muito, e errar no governo às vezes passa desapercebido mas não é justo. Então, procurei conhecer todos os detalhes do governo, reunir todas as pessoas, não apenas um dirigente, mas todos eles. O que funciona? O que não funciona? Em alguns lugares eu fiz a pergunta: se você estivesse no meu lugar, o que você não aceitaria? Com o que você não concorda? Procurei interagir com todos, recebendo informações que eu não teria de outro jeito. Eu aprendo de ouvido. Cada um tem a sua característica, a minha é essa. O primeiro passo foi esse: conhecer o governo. O segundo, sensibilizar as pessoas para a qualidade do serviço público, para o desejo de servir.
[PE] - Reforçando o slogan de campanha, “as pessoas em primeiro lugar”
Colombo - É isso. São elas que precisam da nossa atenção. Estamos procurando criar alguns projetos que dão vida a esse sentimento. Por exemplo, o mutirão de cirurgias eletivas. Quarenta mil pessoas esperando. Essa voz nunca foi ouvida, ela nunca repercutiu. Ontem (18/dez) eu fui acompanhar as primeiras três cirurgias de catarata em Lages. Tem 260 pessoas na fila. Uma delas estava esperando desde 2007. É inacreditável que em 15 minutos você resolva um problema que está ali há quatro anos! Já conseguimos beneficiar mais de sete mil pessoas. Nós não estamos repassando dinheiro para hospital que não tem esse compromisso, estamos enfrentando algumas corporações, mas tem que ser feito. Ainda na saúde, vamos deflagrar uma série de ações importantes em 2012. Vamos fazer mutirão de exames. Não vai ficar uma pessoa esperando. Se há uma suspeita de doença grave e a espera para um exame de diagnóstico é de três meses ou mais, quando for fazer o exame, não é mais suspeita, é a confirmação. Temos que agilizar.
[PE] - Que outro segmento o senhor destaca? Colombo - A área do micro empreendedorismo. Estamos lidando com grandes empresas e elas dão manchetes. Mas e o pequeno empresário? A demanda deste segmento é tanta que só no primeiro mês o projeto do Juro Zero, que empresta até R$ 3 mil, alcançou quase mil operações. Agora queremos ampliar, melhorar o valor. Eu acho esse um projeto característico. É a cara de Santa Catarina o apoio ao pequeno empresário. Numa pesquisa feita aqui no estado mais de 70% das pessoas não querem emprego público nem privado. Elas querem empreender. Então vamos ajudar essa gente.
[PE] - A repercussão deste tipo de iniciativa é grande. Colombo - Está tudo interligado. Agora estamos apostando na escola em tempo integral para o Ensino Médio. Queremos chegar a 100 escolas em todo o estado até 2013. Vamos integrar o ensino acadêmico e técnico. Nossos adolescentes vão ficar nove horas na escola, protegidos, longe das ruas e das drogas. Estamos vivendo um processo difícil de adequar o sistema prisional para receber mais pessoas. Hoje a crise é ética. Uma coisa triste você construir mais penitenciária, mais presídio. Vamos resolver o problema na base, oferecendo educação. E em tempo integral.
[PE] - O senhor está satisfeito com o andamento das obras e ações para infraestrutura viária?
Colombo - É claro que 2011 foi um ano de aprendizado, mas também de muitas ações. Nós conseguimos encaminhar um projeto de financiamento do Banco Mundial, um projeto no BNDES de R$ 700 milhões. Vamos fazer um grande projeto de malha viária, de mobilidade urbana. Se abrirmos aqui um leque das obras que estão em andamento, vamos ver sete estradas para inaugurar até o final do ano. São trechos de 18, 20, 25 quilômetros, mas fundamentais para as comunidades. Não tem nenhuma obra parada no estado. Nenhuma. E uma coisa que eu fiz e faço, que eu acho que é o meu dever, é terminar as obras que estão em andamento. Não tem que começar uma nova enquanto você não concluir as já iniciadas.
[PE] - O senhor falou em conhecer o governo. Quais foram as suas surpresas e decepções nesse processo? Colombo - Eu acho que nós temos condições de fazer operacionalmente um trabalho melhor. Nós temos condições de prestar um serviço melhor no atendimento às pessoas. E aperfeiçoando tudo. Porque o Estado já existe, ele já está funcionando. O que a gente pode fazer é a reengenharia interna, é fazer ele ser mais eficiente. Uma decepção foi não entregar, não terminar a penitenciária de Itajaí. Como é difícil isso! Uma empresa consegue prejudicar um estado inteiro.
[PE] - As dificuldades que o senhor encontrou este ano foram resultado da herança do governo anterior?
Colombo - Não. Eu acho que o governo tem novos desafios. A sociedade está muito mais dinâmica, as redes sociais são um instrumento espetacular, democrático, de cobrança, de mudança. Não adianta ficar falando das coisas ruins. Muitas coisas boas aconteceram, noutras precisamos evoluir. Isso faz parte do processo. Não tenho nenhuma reclamação. Eu acho que agora eu tenho que enfrentar desafios. E estamos prontos para isso.
[PE] - As secretarias de Desenvolvimento Regional (SDRs) são sempre um ponto polêmico. O senhor deve mantê-las? Haverá fortalecimento?
Colombo - Eu estou aprendendo com as SDRs, pegando bem o operacional e promovendo um processo de evolução. Eu acho que é uma experiência que merece mais tempo. Não se pode, a cada governo, interromper tudo, zerar tudo, e começar de novo. Nossa ideia é dar curso às SDRs e aperfeiçoar sua atuação.
[PE] - Uma ênfase nesse primeiro ano foram os contatos para atração de empresas. O que se pode esperar para os próximos anos?
Colombo - Santa Catarina é vista de forma muito simpática, muito positiva lá fora e mesmo dentro do Brasil. Nós temos vantagens estratégias importantes. Os portos, por exemplo. Nós temos cinco portos que funcionam bem, que são hábeis, que são dinâmicos, que são no mínimo melhores que os outros que estão por aí no país. Temos uma mão de obra extremamente qualificada, diferenciada. Por outro lado, temos desafios. Nós não produzimos aço, nós não produzimos algodão, nós não produzimos grãos na quantidade necessária. Então temos que inovar. Temos que investir bastante em tecnologia, em informática, em tecnologia da informação; atrair empresas com valor agregado importante e de base tecnológica, de inteligência. Nesse sentido nós evoluímos muito. Temos grandes e boas notícias que já estão consolidadas e outras virão talvez ainda este ano.
[PE] - O senhor falou de saúde e de educação. E como fica a segurança?
Colombo - Dos 27 estados do Brasil, Santa Catarina é o que apresenta os melhores índices de segurança. É claro que se tiver um crime apenas, já é o suficiente para dizer, “bom, eu não estou seguro”. Mas se olhar os 27 estados, nós estamos bem. Há um bom trabalho nessa área. Estamos aumentando significativamente o efetivo da Polícia Militar, da Polícia Civil, dos Bombeiros, do Instituto Geral de Perícias. Isso tem um custo enorme para o Estado. Nós estamos com 1,2 mil policiais sendo treinados, 400 já estão trabalhando. Agora, se o sistema penitenciário funcionar adequadamente, e há um grande trabalho sendo feito para isso, diminui o esforço na área de segurança. Há um grupo técnico muito qualificado trabalhando nas secretarias de Segurança Pública e de Justiça e Cidadania.
[PE] - Como o senhor avalia a relação com o governo federal nesse primeiro ano?
Colombo - Nos momentos mais críticos eles foram parceiros importantes. Falo das enchentes. Nas duas, a de janeiro e a de setembro. Em ações estratégicas, a presidente Dilma também é acessível. Sob o ponto de vista de obras, eu acho que ainda há muito por avançar. Falo das BR-470, 101, 280. É um absurdo para Santa Catarina ter estas rodovias da forma como estão. Falo também de portos e aeroportos. Ou seja, basicamente de infraestrutura. Mas eu sinto que há boa vontade com Santa Catarina e não há nenhum problema da parceria com a gente.
[PE] - Como está o PSD e o que o senhor vislumbra para a sigla?
Colombo - Eu tenho dedicado pouco ao PSD. E procuro não me envolver no dia a dia porque primeiro eu tenho que governar Santa Catarina, não ser partidário. Por outro lado, também tenho uma aliança, responsável por minha eleição, e tenho que ter um equilíbrio nisso. Então, minha interferência é sempre a mínima, a menor possível sem ser omisso. Porque não é justo que meus companheiros percebam em mim um covarde, ou um desinteressado.
[PE] - Até porque o senhor foi uma das mais importantes figuras nacionais para a consolidação da nova sigla.
Colombo - Pois é. E o que me motivou? Eu acho o modelo político brasileiro uma vergonha. Muito ruim. Está podre e não responde às necessidades da sociedade. Permanece de costas para as pessoas. Eu afirmar isso e ficar no DEM seria uma incoerência. Então eu provoquei muito a criação de um novo partido. Eu acho que foi decisivo esse instrumento. Quem realmente liderou foi o Gilberto Kassab (prefeito de São Paulo). Conversávamos todos os dias e ele dizia - “Eu não tenho como ir sozinho, é decisiva a sua participação”. E eu respondia - “Pode tomar a decisão que vou junto”. Só mudar a sigla não adianta nada. Vai ser mais uma decepção para todos, inclusive para mim, se ficar só nisso. O que eu espero é que a gente tenha uma prática nova, um discurso novo, um compromisso novo. Está terminando um ciclo na política brasileira, mas ainda não começou o novo. A gente não sabe direito como é que vai ser, para onde vai...
[PE] - Qual o modelo ideal?
Colombo - Temos que fazer uma reforma, uma mudança no modelo eleitoral. O atual estimula a corrupção, desorganiza as instituições, personaliza. O resultado está aí. Temos que, realmente, fazer política com mais idealismo, com mais doação, dentro de um espírito de missão. Podem até ironizar, mas nós temos que acreditar nisso, se não, não tem sentido!
Governador destaca investimentos para a região
Uma das regiões mais populosas do estado e que também recebe a maior parcela de turistas, seja para veraneio ou para conhecer a cultura ítalo-germânica, o Vale do Itajaí tem hoje atenção especial do governo do Estado, segundo o próprio governador Raimundo Colombo. Itajaí, por exemplo, está sendo contemplada com uma série de investimentos. Segundo maior PIB catarinense, a cidade é visada como potencial devido ao seu porto. “O Estado é visto de forma simpática em nível mundial por seus portos, que são ágeis, dinâmicos e com mãode obra qualificada e diferenciada”, garante o governador.
O projeto prioritário para o governador para a região é a duplicação da rodovia SC-486, que liga Brusque a Itajaí. “Acho fundamental esse projeto. Ele já está encerrado, mas terá de passar por um ajuste, porque o projeto original está com quase R$ 200 milhões”, revela. O Centro de Eventos de Balneário Camboriú, que há um ano está parado devido a erros no edital, também é uma garantia de Colombo. “Há muita coisa para se acertar”, comenta.
A obra que é “questão de honra” para a presidente Dilma Rousseff, a duplicação da BR-470, apesar de estar parada, também é pauta do governo do Estado. “Há muito para se avançar neste caso. Considero a BR-470 fundamental. Assim que o projeto estiver pronto, temos que lançar as obras. A situação atual é uma vergonha para Santa Catarina. O projeto, que vai de Navegantes até Indaial, encerra em janeiro. Estou acompanhando todo dia”, declara.
As regiões de Rio do Sul e de Jaraguá do Sul, castigadas pelas enchentes de setembro, também são acompanhadas de perto. “Todos os recursos prometidos estão sendo repassados. Atrasados, mas estão saindo”, diz. Ele ainda afirma que a parceria com o governo federal foi fundamental para ajudar a recuperar as regiões atingidas.
O tema mais vital para a população, a saúde, está no topo das prioridades de Colombo. Segundo ele, o mutirão de cirurgias foi a fórmula encontrada para atender mais e melhor, e ainda garantir a manutenção de alguns hospitais. “Antes se dizia que não deveria dar dinheiro para custeio. Mas nós estamos passando dinheiro para custeio. Os hospitais estão falidos, porque a tabela do Sistema Único de Saúde (SUS) é uma vergonha, remunera muito mal e os hospitais não conseguem se manter. Então o Estado está pegando sua energia que deveria ser para investimento tecnológico e dando suporte ao operacional.”
No caso de Itajaí, ele garante que irá ajudar com recursos o Hospital Maternidade Marieta Konder Bornhausen, para construção de uma nova torre. Com Rio do Sul será a mesma coisa. No caso de Balneário Camboriú, Colombo diz que o Estado tem socorrido com custeio. “Estamos ajudando o Ruth Cardoso, que é o novo hospital, e estamos discutindo a manutenção do Santa Inês.”
A fonte de renda encontrada para atender a essa necessidade da população vem através do Projeto Revigorar. “O Projeto Revigorar teve muito êxito. Através dele o contribuinte resgata suas dívidas e tudo é colocado na Saúde.”
Algumas grandes empresas estão sendo estimuladas a se instalar no estado, a maioria atraída pela região Norte, caso da BMW, que está sondando cidades como Itajaí, Barra Velha e São Francisco do Sul. “Mas estou proibido de falar sobre isso.”
