
- Instrumento tecnológico permite hoje o acesso a acervo de museus, por exemplo, sem precisar sair de casa. (Foto: Marcele Gouche)
Abrangente e novo, o conceito cultura digital ganha mais espaço para discussões e chega ao conhecimento da sociedade, principalmente através das transformações tecnológicas. “Eu sempre associo a cultura digital ou cibercultura às relações entre pessoas mediadas pela tecnologia e pela comunicação digital para compartilhar conhecimento. Mas não é um conceito fechado, muitos pesquisadores estão estudando as diversas vertentes e implicações da cultura digital na sociedade”, explica Lívia de Souza Vieira, jornalista e docente do Bom Jesus/Ielusc, de Joinville, que integrou durante cinco anos a equipe de Comunicação Digital da Petrobrás, no Rio de Janeiro.
Para Lívia, o uso da tecnologia digital é capaz de mudar comportamentos, mas nem todos têm acesso à cultura digital no Brasil. “É aí que entra a importância das políticas públicas, que vão democratizar o acesso e ao mesmo tempo instigar a criação, produção e compartilhamento dessa cultura digital entre as pessoas. Isso tudo na rede e fora dela”. Além de políticas públicas, a especialista destaca iniciativas de financiamento colaborativo. “Um exemplo é o Catarse (http://catarse.me/pt), site que seleciona projetos que podem ser financiados por qualquer pessoa. É uma forma nova de incentivo à cultura digital que não depende do financiamento público, mas da sensibilização das pessoas”. Acompanhe a entrevista abaixo e conheça mais sobre o tema.
O Correio do Povo: O acesso aos instrumentos tecnológicos não garante o acesso à cultura digital?
Lívia Viera: Garante o acesso, mas não garante que as pessoas que possuem instrumentos tecnológicos buscarão a cultura digital. Ao passo que, pessoas que não têm acesso à tecnologia digital podem estar sedentas por cultura digital. É aí que entra a importância das políticas públicas, que vão democratizar o acesso e ao mesmo tempo instigar a criação, produção e compartilhamento dessa cultura digital entre as pessoas. Isso tudo na rede e fora dela.
OCP: Quais são os atores que se destacam, hoje, na cultura digital brasileira?
LV: É difícil falar em atores que se destacam, porque a cada dia surgem trabalhos interessantes. Mas o Festival da Cultura Digital é um bom parâmetro, pois dá visibilidade a ações de cultura digital no Brasil e no mundo. Entre os trabalhos apresentados (páginas 28 a 37: http://culturadigital.org.br/festivalcdbr_guia.pdf), destaco quatro brasileiros. Garoa Hacker Clube, o primeiro hackerspace (laboratório comunitário de tecnologia) surgiu em São Paulo em 2010. Atualmente, seus integrantes movimentam uma rede de interessados no assunto com representantes de quase todo o país e forte articulação internacional. Arte Fora do Museu mapeia, na cidade de São Paulo, as obras de arte que estão nas ruas e passam despercebidas por já fazerem parte da paisagem. O site dá uma sinopse detalhada das obras e inclui comentários de um especialista. O Cultivo.cc é a primeira rede de financiamento coletivo de projetos (crowdfunding) associada às leis de incentivo do Brasil. Proporciona o encontro entre projetos aprovados nessas leis e incentivadores. E Compacto Petrobrás que são encontros entre artistas de todo o Brasil que revelam momentos memoráveis da nova música brasileira, baseados no poder da diversidade e na criação coletiva.
OCP: Foram criadas políticas públicas para apoiar essas iniciativas?
LV: Dos projetos que citei: O Garoa Hacker Clube não possui convênio com nenhuma empresa, governo ou universidade. O Arte Fora do Museu participou do edital da Funarte (MinC), com incentivo financeiro público.O Cultivo CC é interessante, pois o projeto em si não tem incentivo fiscal público, mas é feito para ajudar as pessoas a conseguir.O Compacto Petrobras é feito pela Petrobrás, uma empresa cujo sócio majoritário é o governo brasileiro.
OCP: Como você avalia a atuação do Ministério da Cultura e das Comunicações para incentivar movimentos da cultura digital no Brasil?
LV: Não quero ser partidária, mas é essencial reconhecer que a gestão do ministro Gilberto Gil no Ministério da Cultura foi um marco para a cultura digital no Brasil. Inclusive a gerente de Patrocínios da Petrobrás, Eliane Costa, tem uma dissertação de mestrado sobre “o Ministério da Cultura na gestão Gilberto Gil, diante do cenário das redes e tecnologias digitais”. Entre os diversos avanços, destaco a democratização do acesso com os softwares livres (o Brasil é pioneiro nesse assunto) e a discussão sobre o marco legal dos direitos autorais, que propõe novas formas de licenciamento e gestão de conteúdos.
Eu espero que a gestão atual do MinC não retroceda principalmente no que diz respeito à legislação sobre direitos autorais; e o Ministério das Comunicações, sobre o marco civil da internet.
OCP: Qual a importância da cultura digital para a sociedade?
LV: O próprio Gilberto Gil fala que o uso de tecnologia digital muda os comportamentos. Isso pra mim é o que há de mais relevante para cada cidadão: a possibilidade de compartilhar conhecimento, de divulgar projetos que, sem a internet, jamais teriam visibilidade e, principalmente, de gerar conteúdo relevante para as pessoas que, por sua vez, também são geradoras em potencial de conhecimento.
OCP: Que tipo de políticas públicas são necessárias para promover e levar a cultura digital até a população?
LV: A criação de editais para seleção de projetos é uma iniciativa democrática, mas ainda tímida diante da quantidade de projetos bacanas que acabam sendo deixados de fora por conta, principalmente, da limitação de verba. Diminuir a burocracia dos processos de seleção dos projetos é muito importante para que mais iniciativas surjam. Quando os governos e empresas percebem o enorme poder da comunicação digital e decidem apoiar financeiramente esses projetos, toda a sociedade ganha.
Exemplos de editais: Funarte, Programa Petrobrás Cultural e os do próprio MinC.
