Um banco que não acredita no Brasil

Os bancos brasileiros cobram taxas como se estivéssemos em anos de inflação acima de dois dígitos Jorge Brognolli

Jorge Brognoli, economista e consultor
Publicado 06/05/2010 às 15:06:15 - Atualizado em 07/05/2010 às 18:00:56

Em outubro de 1999, o Banco Central do Brasil publicava um estudo na forma de relatório sobre juros e spread bancário no país, e lá estava escrito na introdução: “as taxas de juros brasileiras estão atualmente entre as mais elevadas do mundo. Isso se deve, em parte, às condições macroeconômicas que caracterizaram o período recente, e que hoje começam a reverter-se”. Em dezembro de 2003, em outro relatório, dizia: “passados quatro anos da primeira edição do relatório Juros e Spread Bancário no Brasil, verifica-se que, apesar dos bons resultados relativamente ao volume de crédito concedido no segmento livre, as taxas de juros pagas pelo tomador brasileiro continuam sendo muito elevadas”.

Bem, no relatório de 2008, surge a crise mundial e uma nova metodologia para a “decomposição do Spread bancário” e, absolutamente, eles não precisam mais mencionar que as taxas de juros no Brasil ainda são as mais altas do mundo porque parece que ninguém está interessado em interromper esse ciclo virtuoso de lucros bancários que, na verdade, deterioram as finanças da população brasileira. E lá vamos nós subindo a escada dos juros novamente, porque parece que o crescimento do consumo pela melhoria da renda está ocasionando um aumento no nível geral de preços e a inflação dá sinais de crescimento.

Porém, quanto de juros está embutido no nível geral de preços dos produtos consumidos a prazo pelo consumidor e, naturalmente, embutido nos preços pelos produtores e comerciantes? Senão vejamos, a Selic em 2005 era 18,24% a.a., o IPCA 5,69% e o INPC 5,05% anual. Em 2008, respectivamente, 13,66%, 5,90% e 6,48%. Em outubro de 2009 tivemos 8,65%, 4,17% e 4,18%. Em março de 2010 temos o IPCA acumulado de 5,17%, ainda dentro da meta, porém, o Copom elevou a Selic de 8,75% a.a. para 9,50% a.a.

A trajetória da nossa taxa de juro real descontada as expectativas de inflação caiu de 18% em 2003 para 6% a.a em abril de 2010, mesmo assim é uma das mais elevadas do mundo. A Selic acumulada no mês anualizada caiu de março 2003 de 26,32% para 8,65% a.a. em março de 2010. O que não vimos nesse tempo de queda de Selic e taxa real de juros, foi uma queda proporcional na ponta do tomador no mercado interno. Os bancos brasileiros se esqueceram de tudo isso, e continuam cobrando taxas como se estivéssemos em anos de inflação acima de dois dígitos, o que precisa ser entendido não como um desvio, mas com uma intenção deliberada de cobrar por riscos inexistentes, se transformando em escárnio público. Basta ver os balanços trimestrais dos vários bancos que começam a serem publicados, os lucros fazem corar de vergonha outros setores produtivos que não conseguem ser tão “eficientes”.

Os bancos brasileiros cobram taxas como se estivéssemos em anos de inflação acima de dois dígitos.

O que não é compreensível é como um Banco Central entende como normal que um banco cobre do correntista no cheque especial uma taxa de juro de 10,10% a.m., o que dá 222,50% a.a., e no cartão de crédito 12,51% a.m., ou seja, 270,59% a.a.. Não há nada comparável no mundo. Em recente palestra o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, falou que a responsabilidade macroeconômica e a redução da taxa de juros, aliada a maior credibilidade, propiciariam um círculo virtuoso de efeito ampliado a economia. Eu proporia que falasse em termos de “círculo vicioso” que o sistema bancário brasileiro está habituado, e que encontre nas taxas de juros cobradas da população e empresas brasileiras, um elemento ocasionador de inflação, e que sua baixa substancial permitiria manter a inflação dentro da meta.

 De 1998 para cá, incluindo o período FHC e Lula por inteiro, houve vitórias contra a inflação, mas criou-se um paraíso para os bancos e um inferno para os utilizadores de serviços bancários, cujos devedores por problemas variados, veem suas dívidas serem acrescidas de juros moratórios exponenciais, se tornando impagável. Se não há como modificar este quadro de agiotagem com autorização legal, porque os juros são livres, os banqueiros verdadeiramente administram o Brasil. Não é o verdureiro que aumenta os preços, mas os juros embutidos em tudo é que o fazem. O Banco Central do Brasil não acredita no Brasil.  


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