Rios que marcam a paisagem de Jaraguá do Sul

Cortando a cidade, natureza do leito dos rios Jaraguá e Itapocu se perde em meio à paisagem urbana.

Pedro Henrique Leal
Publicado 21/11/2011 às 09:47:09 - Atualizado em 21/11/2011 às 10:59:48
O bombeiro Leandro Torquatto acompanhou a redação de O Correio do Povo pelo rio Itapocu. (Foto: Eduardo Montecino) 

Lar de mais de 143 mil habitantes, o município de Jaraguá do Sul esconde em seus rios uma vida ao mesmo tempo abundante e fragilizada. Somente nos rios Jaraguá e Itapocu, os dois principais da bacia hidrográfica do município, alheios à percepção da maioria dos habitantes, convivem capivaras, lontras, garças, cobras e biguás.

Rio que dá nome a região, o Itapocu cruza não apenas Jaraguá do Sul, mas todo o Vale. Com uma bacia hidrográfica de 2.930 km², o rio nascido da junção de outros dois rios em Corupá, cruza os bairros Nereu Ramos, Três Rios do Sul, Amizade, Rau, Czerniewicz, Centro e Baependi, em um trajeto de 90 km.

O rio Jaraguá nasce da junção de vários córregos na Tifa dos Húngaros, e segue pelo Jaraguá 99, Barra do Rio Cerro, Barra do Rio Molha, Jaraguá Esquerdo e Vila Nova. Devido à falta de definição de onde começa o rio, a sua extensão exata é desconhecida, e segundo o mapa hidrográfico, o rio começa na Estrada Ribeirão das Pedras. Os dois fluxos de água se encontram na Vila Lalau, onde o rio Jaraguá se une ao Itapocu. De lá, seguem pelo Centenário rumo a Guaramirim e o Oceano Atlântico.

O toque humano é visível nas margens dos rios: ele se dá nas pontes e nos pontilhões, e nos muros de casas antigas, construídas literalmente à margem do rio quando a lei não se preocupava com os efeitos nocivos da manipulação das margens. Mas também na forma de encanações de esgoto e do lixo despejado nas águas, e nos restos do uso de drogas em pontos escondidos nas margens.  

A influência também é visível nos bananais e arrozais, nas touceiras de bambu e nos eucaliptos que se misturam e tomam o espaço da mata nativa – que nem sempre está presente em quantidade suficiente, e precisam de maiores esforços de preservação.

 

Na Ilha da Figueira, biguá enfrenta a correnteza em busca de alimento. (Foto: Eduardo Montecino) 

Fauna ainda é pouco conhecida

Embora atravesse toda a região, o ecossistema da bacia do rio Itapocu é ainda pouco conhecido. Segundo a coordenadora ambiental da Fujama (Fundação Jaraguaense de Meio Ambiente), Fernanda Miranda, ainda não há um levantamento preciso sobre a fauna na região. Embora os centros de ensino superior tenham auxiliado neste sentido, ainda não se conhece o bastante sobre a vida selvagem nos rios. “Ainda falta política pública específica neste sentido”, lamenta.

Encontros com animais silvestres não são raros, explica o biólogo da Prefeitura, Ulises Sternheim. São cerca de quatro ocorrências por dia, em geral com gambás e cobras não venenosas. “É importante que a população informe o poder público, para que possamos retirar o animal e devolver ele ao ambiente, se for o caso”, pede, ressaltando que em muitos casos o animal acaba sendo morto, ou é devolvido de forma inadequada à natureza.

 

Defesa Civil e bombeiros mantêm esforços para retirar material acumulado sob as pontes. (Foto: Eduardo Montecino) 

Além de poluição, descarte no rio é ameaça

Por si só o descarte de lixo e de entulhos nas margens e no próprio fluxo dos rios é condenável pela poluição. Mas segundo o secretário da Defesa Civil, Jair Alquini, essa prática é repreensível por mais um motivo: os alagamentos. “Em hipótese alguma é aceitável que se jogue coisas no rio, tudo o que obstrui a passagem da água nos deixa mais vulneráveis”, explica.

De acordo com o presidente da Fujama, César Humberto Rocha, a prática está se tornando mais rara, devido a campanhas de conscientização, mas ainda acontecem. “O que mais se encontra atualmente são garrafas velhas, sacolas plásticas e pneus, mas já chegamos a encontrar até geladeiras dentro do rio”, lamenta.

O promotor público do Meio Ambiente, Alexandre Schmidt dos Santos, ressalta que é difícil coibir a prática. “É um crime, obviamente, e um completo absurdo, mas raramente temos como identificar e punir o autor”, conta. Segundo o promotor, o que geralmente ocorre é se encontrar o descarte muito após ele ter sido feito. Quando o crime é cometido por empresas, o trabalho é mais fácil. “Quando são empresas despejando lixo ou poluentes no rio temos como rastrear até a fonte e tomar medidas corretivas, o mesmo não ocorre quando uma pessoa joga lixo na água”, conta.

Para evitar que o material acumulado cause problemas, a Defesa Civil e os Bombeiros têm feito liberação e a retirada dos entulhos na base das pontes, enquanto a Fujama tem trabalhado na remoção do lixo propriamente dito. Este ano foram duas operações de limpeza dos rios, no Itapocu e no seu afluente, o Itapocuzinho. Segundo o presidente da Fujama, foram retirados cerca de 750 kg de lixo. “E isso foi o que conseguimos pegar, tem mais em outros rios”.

 

Com fortes correntezas e leito irregular, rios não são seguros para banhos. (Foto: Eduardo Montecino) 

Água não serve ao banho e risco de afogamento é alto

Não há qualquer motivo para se entrar nos rios Itapocu e Jaraguá e correr risco de se afogar, alerta o comandante dos Bombeiros Voluntários, Fabiano Candido. Somente neste ano, já ocorreram 26 ações de busca e salvamento dentro dos rios. De acordo com o comandante, a água não é apropriada para banho e o leito do rio é arriscado mesmo para nadadores e mergulhadores experientes. Todos os anos, acontecem em média quatro mortes por afogamento no município.

“Com a erosão, o leito muda a cada vez que chove, e devido à correnteza, os nadadores podem ficar presos entre as rochas ou o entulho”, explica. A maioria dos casos de afogamento ocorre com pessoas de fora, que não têm ciência do risco. “A pessoa decide entrar no rio sem saber, e acaba presa ou arrastada”, explica, lembrando que não há áreas de menor risco no município. Com a visibilidade baixa causada pela água lamacenta, até para os bombeiros especializados em resgate dentro dos rios existe risco. “A visibilidade raramente passa de alguns centímetros, por isso sempre temos bombeiros de olho fora da água, para não nos perdermos”.

Candido também alerta quanto à navegação. “Os clubes de canoagem têm um treinamento especial para lidar com o rio, eles sabem o que estão fazendo, mas quem não tem treino deve evitar o rio mesmo com um barco”, afirma, ressaltando que muitas vítimas de afogamento são pescadores que foram derrubados pela correnteza ou por bater nas rochas. “Em qualquer situação, é inadmissível estar de barco sem um colete salva-vidas”, frisa.

Para promotor, construção no leito precisa parar

“Nós temos que pensar no que queremos para o município, pois continuar construindo e aterrando no leito do rio significa deixar o Centro da cidade debaixo da água”, alerta Alexandre Schmidt dos Santos. O aviso do promotor público do Meio Ambiente não é novidade, e já foi dado no 1º Seminário Municipal da Defesa Civil, em setembro, e na reunião do Comdema (Conselho Municipal do Meio Ambiente) no dia 9 deste mês.

Segundo o promotor, não é mais viável autorizar construções sem ser com base no Código Florestal. “Até temos exceções isoladas, mas no geral, temos que seguir o Código Florestal”, afirma.

Dependendo da largura do rio, as construções precisam manter uma distância entre 30 e 100 metros do leito. De acordo com o promotor, a legislação já está sendo aplicada nos loteamentos da Prefeitura e em construções novas. “O problema é onde já existe a construção, onde temos que regularizar”. Mas além das restrições no local das obras, há uma questão que pesa mais em termos de preservação: a proibição de novos aterramentos em áreas alagáveis.

Na última reunião do Comdema, foi determinado que fosse realizado um estudo sobre a situação das Áreas de Preservação Permanentes (APPs) e um decreto proibindo novos aterramentos. Segundo o promotor, um estudo já foi contratado junto à Furb, mas a Prefeitura ainda não baixou o decreto.

Como trazer de volta o verde?

A mata ciliar do leito dos rios Itapocu e Jaraguá está fragilizada em vários pontos. Onde não foi substituída pelo cultivo agrícola, por construções ou por plantas exóticas, a recuperação das APPs é um desafio continuo, explica a coordenadora ambiental da Fujama, Fernanda Miranda. “Ainda não temos como fazer o bastante para recuperar essas áreas, e contamos com a ajuda da população para preservar”, afirma.

Para o promotor do Meio Ambiente, Alexandre Schmidt dos Santos, a questão é o próximo passo a ser dado após impedir o aterramento das áreas alagáveis. “Temos que fazer alguns estudos sobre a mata nativa, mas o próximo passo é recuperar as APPs onde for possível”, afirma.

De acordo com a coordenadora, a mata não está sempre presente, dividindo o espaço não apenas com arrozais e bananais, mas também com plantações de eucalipto e de bambu – espécies exóticas, e que o ambiente local não está preparado para controlar. “Nós controlamos as empresas que mantém essas plantações, para que elas não se tornem invasoras, mas o correto seria que só tivesse mata nativa”, afirma. A Fujama, inclusive, oferece mudas de plantas nativas para a população ajudar na recuperação.

Segundo Schmidt, a legislação permite o cultivo dessas plantas exóticas, contanto que não tome completamente o lugar da mata original. O promotor lembra que há outro desafio para recuperar a vegetação original da bacia do Itapocu: além dos pontos em que a antiga área de mata já foi completamente urbanizada, é preciso descobrir precisamente qual era a vegetação original. “Não podemos simplesmente colocar mais árvores, pois nem todo o leito era arborizado, temos que saber o que estava lá antes”, afirma.  

Percurso do rio Itapocu: 90km

Nascente do rio Itapocu: junção dos rios Rio Novo e rio Humboldt, em Corupá

Percurso do rio Jaraguá: sem estimativa

Nascente do rio Jaraguá: junção do rio Jaraguazinho com os ribeirões Garibaldi e Rodrigues e com os córregos Cacilda e Jararaca.

Bacia Hidrográfica do Itapocu: 2.930 km²

Número de afogamentos registrados em média por ano: quatro em Jaraguá do Sul, dez em todo o Vale, segundo os Bombeiros.

Cobertura vegetal predominante: Mata Atlântica (nativa)

Arroios de bambu (exótica)

Eucalipto (exótica)

Bananeiras (cultivo)

Arrozeiras (cultivo)

Animais identificados na bacia do rio incluem capivaras, lontras, cobra dormideira, coral verdadeira, sabiás-laranjeira, pardais, bem-te-vis, biguás, saracuras-do-mato, canários-da-terra, garças, patos selvagens, rãs-bugio e diversos outros anfíbios – não há um levantamento detalhado da fauna.

Bairros no trajeto do rio Itapocu: Nereu Ramos, Três Rios do Sul, Amizade, Rau, Czerniewicz, Centro, Baependi, Vila Lalau, Ilha da Figueira e Centenário

Bairros no trajeto do rio Jaraguá: Tifa dos Húngaros, Jaraguá 99, Barra do Rio Cerro, Barra do Rio Molha, Jaraguá Esquerdo e Vila Nova


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