
- Paula lamenta a falta de espaço para deficientes auditivos no mercado de trabalho. (Foto: Eduardo Montecino)
A expressiva Paula Maria Markewicz não dispensa sorrisos ao contar sobre suas conquistas. Aos 25 anos, ela é a primeira funcionária surda da Prefeitura de Schroeder. Paula parecia não conter a empolgação. A reportagem do OCP esteve com ela no seu novo ambiente de trabalho. Conversamos com a jovem acompanhados pelo intérprete e aluno de Paula, Irineu Hencke. Ela fez questão de não deixar escapar em sua fala, composta por Libras (Língua Brasileira de Sinais), como surgiu o convite para integrar a equipe de servidores do município.
Em uma sessão para comemorar o Dia dos Professores, em outubro passado, o prefeito Felipe Voigt disse que havia tentado fazer de tudo para o município. A jovem pediu licença para dar sua opinião. Com o auxílio de Irineu, Paula falou que Voigt não havia feito de tudo por Schroeder, pois nenhum surdo estava trabalhando na cidade. Voigt prontamente respondeu: “se você conhecer algum surdo formado, me apresente que contrato agora”, recorda. Irineu não tardou em apresentar-lhe Paula. Pouco tempo depois, o prefeito procurou a jovem e a convidou para ocupar um cargo no setor de Recursos Humanos (RH) da Prefeitura.
OBJETIVOS
Na manhã do primeiro dia de trabalho, dia 23, Paula foi apresentada aos colegas. “Estou muito feliz porque encontrei o sonho da minha vida. Este trabalho está abrindo portas para mim”, afirma. Ela está exercendo a função de assistente administrativa, financeira e de gestão de pessoas. Há pouco mais de um ano, Paula se formou em administração pela Católica de Santa Catarina. Antes de ser convidada a trabalhar no município, a jovem se consolidou como intérprete de Libras. Segundo ela, já deu aula para cerca de três mil pessoas, entre ouvintes e deficientes auditivos.
Os planos da jovem para a carreira pública ultrapassam a função que vem realizando. Além da pretensão de continuar tentando vagas nos concursos públicos – Paula passou no da Prefeitura de Jaraguá, mas não foi chamada, – seu objetivo é entrar para a carreira política e trabalhar pela inserção de pessoas com deficiência na sociedade. “Antes só existiam homens na política, mas essa realidade está mudando. Agora temos mulheres e, quem sabe, futuramente teremos mais deficientes”, diz otimista. “Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”, brinca.
Paula foi encorajada a correr atrás dos planos
Em toda a vida de Paula nunca ninguém disse a ela que não conseguiria. Pelo contrário, os pais, por exemplo, a encorajaram a fazer tudo o que quisesse. Eles também são surdos. Paula sempre tentou servir como inspiração para pessoas com a mesma deficiência. Ela acredita na falta de espaço para deficientes auditivos no mercado de trabalho. “É difícil escolherem surdos para ocupar vagas em empresas. Normalmente optam por pessoas com outros tipos de deficiência”, comenta.
O marido da jovem também é surdo. Paula conta que até mesmo seus cinco cachorros já compreendem Libras. “Eles sabem os sinais para comer, dormir, passear, banheiro e carro”, destaca. Toda a formação de Paula foi com alunos ouvintes. Até mesmo sua alfabetização foi auxiliada por colegas ouvintes. “Eu lia a palavra, se não sabia seu significado, meus amigos pegavam revistas e me mostravam a imagem correspondente”, lembra.
Quem está satisfeito com sua nova contratação é o prefeito Felipe Voigt. “O espaço serve não só para beneficiar a Paula, mas a chamamos por ela ser a profissional que é”, salienta. De acordo com o prefeito, a entrada de Paula é uma oportunidade para que as portas da Prefeitura fiquem abertas a futuros funcionários com deficiência. Segundo ele, a vinda de Paula será de grande aprendizado para os outros funcionários. No princípio, Paula contará com a ajuda de Irineu, mas posteriormente, Voigt ainda não sabe como fará. “A gente vai se obrigar a acompanhá-la. Quem sabe ela não nos dá aulas?”, cogita.
