Especialista fala das condições de mobilidade urbana em Jaraguá do Sul

Em um panorama geral, especialista analisa as dificuldades relacionadas às condições de mobilidade e discorre sobre soluções.

Daiana Constantino
Publicado 19/01/2012 às 08:21:02 - Atualizado em 19/01/2012 às 08:56:42
Congestionamento é um dos principais problemas enfrentados pela população local cotidianamente. (Foto: Arquivo OCP) 

Na maioria das vezes, a deslocação de um canto da cidade para outro gera desconforto e incômodo para pedestres, ciclistas, usuários de transporte coletivo e motoristas. Grande parcela das dificuldades para se movimentar tem a ver com as limitações da mobilidade.

Atualmente, com mais de 140 mil habitantes, Jaraguá do Sul está entre os municípios que têm sérios problemas relativos à questão. O engenheiro civil e especialista em Planejamento Urbano, Osmar Günther, avalia a realidade local e as condições de locomoção no município. Confira a entrevista abaixo.

O Correio do Povo: Para começar, explique o que é mobilidade urbana.

Osmar Günther: São as condições de deslocamento de pessoas e bens no espaço urbano, em tempo satisfatório, de forma segura e confortável.

OCP: Na sua avaliação, quais os problemas que a cidade tem hoje que prejudicam a mobilidade urbana?

OG: Os mesmos de todas as cidades com alto índice de motorização, que é fruto da sua forte economia. Ela também cresceu demograficamente a altas taxas e rapidamente. Por outro lado, o planejamento urbano, embora exista o Plano Diretor desde 1993, nunca foi item prioritário na pauta dos governantes. Hoje nos ressentimos disso.   

OCP: O que fazer para melhorar?

OG: Evitar intervenções pontuais e ocasionais desnecessárias. Contratar um bom estudo operacional global de circulação do tráfego, atrelado à hierarquia viária do Plano Diretor, com uma pesquisa prévia de origem-destino. Antes de qualquer mudança, precisamos saber como o jaraguaense se desloca e de que forma. Trabalhar também com o conceito de compactação da cidade e de autonomia dos bairros, que minimizaria os deslocamentos e favoreceria a micro-mobilidade. O uso do solo deve merecer especial atenção, pois são os pólos geradores, as atividades no tecido urbano, que geram e atraem viagens. E dar ênfase ao transporte coletivo de qualidade e barato.   

OCP: Estacionamento para carros em áreas de grande movimento é outro problema, pois faltam vagas. O sistema rotativo é suficiente? Ou é preciso pensar em novas alternativas?

OG: Parece que atendeu reivindicação dos lojistas, que deveriam gerar espaços internos nos seus estabelecimentos, mas cria problema em ruas de fuga, de caráter residencial, fora da área delimitada, que ficam entupidas o dia todo. Estacionamentos verticais em pontos estratégicos periféricos ao Centro também serão importantes futuramente, pois o motorista estacionaria seu carro ali, protegido do tempo, com segurança, e se deslocaria de outro modo ao seu destino, evitando circular com o carro. Esses estacionamentos também liberariam espaço viário, tirando veículos estacionados em faixas laterais das vias, que poderiam ser usadas para o transporte coletivo.   

OCP: Até existem ciclovias, mas elas não estão interligadas.

OG: Deve ser elaborado um plano setorial cicloviário. Amsterdam, referência mundial, levou 15 anos planejando seu sistema. As rotas não podem ser improvisadas. E devem integrar moradia-escola-trabalho-lazer e o transporte coletivo. Mas sou cético em relação à bicicleta como meio de transporte na nossa região, por uma série de razões. Dentre as quais a topografia, o clima quente ou chuvoso, as longas distâncias a percorrer, a falta de espaço viário e a segurança. Além do que a grande equação da mobilidade é transportar o máximo de pessoas por um número menor de veículos, coisa que a bicicleta não faz.           

OCP: Qual a importância de um sistema viário e do Plano Diretor para a cidade?

OG: Ora, uma cidade sem plano está fadada ao caos, ao colapso urbano, à deterioração da qualidade de vida de seus habitantes. O nosso Plano trabalha com dois sistemas de organização do espaço físico: o ambiental, que é onde a população mora e trabalha, e o de mobilidade, que é por onde a população circula. E nesse sistema há toda uma hierarquização viária, atribuindo funções a cada tipo de via e otimizando fluxos. Estão também previstos os eixos prioritários, os anéis viários e os corredores de transporte coletivo. O objetivo é fazer com que o usuário se desloque de forma segura e rápida ao seu ponto de destino, encurtando distâncias.  

OCP: Qual sua opinião sobre a Lei Nacional da Mobilidade?

OG: Extremamente oportuna. Traz diretrizes e conceitos de abrangência nacional, prioriza o transporte não motorizado sobre o motorizado, o transporte público sobre o individual, a integração modal e regula os serviços de transporte público coletivo, os direitos dos usuários, o planejamento e a gestão dos sistemas de mobilidade urbana e os instrumentos de apoio. Trata-se da Lei Federal 12.587, de 3 de janeiro de 2012. Entra em vigor em 100 dias.


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