
- (Foto: Divulgação de Pedro Freitas)
O consagrado pianista e compositor Marlos Nobre, 72 anos, é uma sumidade quando se trata de música erudita. Nascido em Recife e desde 1962 no Rio de Janeiro, é casado com a grande pianista brasileira Maria Luiza Corker, com quem teve a única filha, Karina, 18, que é estudante universitária. Ele começou a tocar aos quatro anos com a prima Nysia Nobre, na época a melhor professora de piano do Recife e aluna de Tomás Terán.
Começou a se apresentar nos recitais dos alunos da Nysia, no Teatro de Santa Isabel, em Recife. Aos seis anos, começava a fazer pequenas composições. Ingressou no Conservatório Pernambucano de Música aos 10 anos, para completar os estudos de piano e teoria musical. Com 14 anos, passa a estudar com o grande professor padre Jaime Diniz, que chegou ao Recife vindo da Itália, recém-formado. Aí Marlos iniciou os estudos de contraponto, que o levavam à técnica da composição.
Em 1960 estudou com Koellreutter, e em 1961, com Camargo Guarnieri. Em 1962, venceu o concurso da Rockefeller Foundation para estudar com compositores, como Ginastera, Messiaen, Dallapiccola, Malipiero e Copland, de 1963 a 1964, no Instituto Di Tella, em Buenos Aires. A partir daí começou a carreira no exterior, ao apresentar a obra Ukrinmakrinkrin, em Paris, e venceu a Tribuna de Compositores da Unesco, apresentada em cerca de 45 países. A carreira deslanchou no exterior e no Brasil.

- “É uma honra indescritível ser o Embaixador do Femusc, um reconhecimento à minha criação e ao que posso ajudar”
Confira a entrevista feita pela equipe do OCP:
O Correio do Povo – Fale sobre seus prêmios nacionais e internacionais.
Marlos Nobre – Ganhei 25 primeiros prêmios internacionais e no Brasil. Comecei a participar dos Festivais mais importantes de música contemporânea nos Estados Unidos. Meu Concerto Breve, em 1971, estreado por João Carlos Martins, em Washington, me valeu consagração crítica no Washington Post e no New York Times, e em Londres, dirigindo a Royal Philharmonic Orchestra no Queen Elizabeth Hall, estreando ali meu "Concertante do Imaginário" solista à minha mulher, a grande pianista brasileira Maria Luiza Corker, a quem dediquei a peça. Assinei contratos de edição de minhas obras na Alemanha, França, Itália e comecei a lançar minha obra em CDs, começando com um CD duplo pela Lemán Classics da Suíça, que me valeu críticas consagratórias na Fanfare/USA. Tenho cerca de 37 CDs lançados internacionalmente e minha obra é tocada em todo o mundo. Sinto-me parcialmente realizado como compositor. Diariamente crio minha obra com o mesmo fervor de 40 anos atrás. Em 2004, recebi o grande prêmio Tomás Luís de Victoria, na Espanha, com dotação de 60 mil euros, por ser considerado então como o mais importante compositor do Continente Iberoamericano. Reconhecimento internacional que afaga o ego mas não me deslumbra. Sigo escrevendo e compondo diariamente minha obra e ainda tenho muito a dizer.
OCP - Nosanos de 1970, o senhor dirigiu o "Concertos para a Juventude"...
Nobre - Comecei a dirigir a série Concertos para a Juventude na TV Globo e ali vi a oportunidade de levar a grande música, a música clássica em larga escala. Criei os Concursos para Jovens Instrumentistas, para Bandas de Música, Corais Universitários, para Ballet, para Jovens Pianistas, animando o meio musical. Antonio Meneses foi revelado ao vencer o Concurso de Jovens Instrumentistas e ganhou uma bolsa para estudar na Europa. Uma infinidade de jovens ali encontraram o primeiro impulso para suas carreiras. Os Corais surpreenderam pela qualidade, os pianistas, violinistas, violonistas, flautistas... Lançamos discos com os vencedores dos concursos de Corais, de Bandas, e a partir daí criamos circuitos de apresentações de recitais com jovem em todo o Brasil a que chamei de Rede Nacional de Música, antecipando em 40 anos o que hoje é feito aqui no Femusc e no Brasil. Tinha patrocínio do MEC e da TV Globo, que queria o horário para transmitir as corridas internacionais de carros. Lutei o quanto foi possível até 1980, quando o horário foi dado às corridas de carros. Tudo estava gravado em caixas e caixas de fitas de gravação, enormes e caríssimas. O Boni, diretor geral da TV Globo, me disse que daria todas as fitas gravadas em 10 anos, se o MEC trocasse o acervo por fitas virgens. Esperou, esperou, depois apagou tudo e reutilizou as fitas em programas do Chacrinha e similares.Uma perda absurda, uma história que se perdeu para sempre.
O Correio do Povo - O senhor é apontado como o melhor compositor de música erudita no Brasil, depois de Villa Lobos.
Nobre - Não gosto desta história de ser o melhor, o maior. Nunca trabalhei visando ser "o melhor". Ao ganhar o prêmio Tomás Luis de Victoria, me consideraram o "melhor e mais importante do Continente Iberoamericano", isto está registrado em ata. Tudo isso afaga meu ego, é uma recompensa indubitável ao meu trabalho incessante e extenuante de mais de 51 anos de exaustiva criação de 260 obras. É maravilhoso, mas quero usar isso para incentivar os jovens compositores. Sem um esforço incessante, contínuo, brutal, ninguém chega lá. São dias, noites, anos, aos quais me subtrai às distrações comuns dos mortais, em prejuízo do convívio com amigos, família, para me isolar e compor. A profissão do compositor é de total isolamento: você está ali, sentado, diariamente, só, irremediavelmente só, diante da partitura branca, com seus lápis e não tem outra coisa a fazer senão escrever, escrever e escrever. Faço oito, 10 horas por dia, quando tenho de compor novas obras o que significa. O sacrifício é pela criação de minha obra, é minha alegria e minha escravidão.
OCP - Fale sobre as 260 obras que o senhor produziu.
Nobre - Produzi todos os gêneros, para orquestra sinfônica, cordas, solistas, câmera, corais, música para violão, instrumentos solistas desde a flauta até a Tuba, desde o violino até o contrabaixo, para todos instrumentos de percussão, para harpas, Cantatas, Oratórios, Concertos, Divertimentos, sonatas, sonatinas, excetuando somente a Ópera, mas isso já está sendo providenciado. Estou no momento terminando minha primeira grande ópera sobre o tema “Lampião”, em três Atos.
OCP - Quais os projetos que o movem hoje?
Nobre - Acabo de terminar uma nova obra encomendada pela Venezuela, pelo meu grande e querido amigo, maestro José Antonio Abreu, criador do "El Sistema". É um novo Concerto para Orquestra que deve ser estreado pela Orquestra Simón Bolivar dirigido por Gustavo Dudamel brevemente. E a nova obra encomendada pela OSESP, uma obra que tem o título provisório de "Sagração da Sagração" para estrear em 2013, ano do centenário da criação da Sagração da Primavera de Stravinsky obra que mexeu comigo em minha juventude, de maneira fundamental. E a Ópera Lampião, sobretudo , e mais projetos de ópera, pelo menos mais duas novas óperas em caminho nos próximos anos.
OCP - Fale sobre a emoção de ser aplaudido de pé no Femusc 2012.
Nobre - A apresentação de minha Cantoria Concertante pela orquestra de jovens do Femusc, a Orquestra de Música Contemporânea dirigida pelo excepcional músico e regente Alex Klein, foi para mim uma imensa alegria.E ao ver aquele público enorme da Scar em pé, aplaudindo a obra depois do acorde final, foi uma das grandes emoções de minha vida de compositor. Eu já tinha dito ao Alex e à orquestra que aquela execução já era mais de acordo com minha obra, meu estilo e minha visão do que a estreia anterior na Espanha. E olhe que em Madrid a obra foi estreada mundialmente pela Orquestra Sony da Escuela Superior de Música Reina Sofia. Escrevi esta obra por encomenda de Paloma O´Shea Presidenta da Escuela, e nela coloquei solos importantes para todos os primeiros músicos dos naipes de cordas, madeiras, metais, e percussão.
A execução no Femusc foi, portanto, esplendorosa, absolutamente perfeita. Cada detalhe da partitura mereceu o cuidado especial do maestro Alex Klein e os jovens corresponderam à altura. Uma grande performance.
É uma honra indescritível ser o Embaixador do Femusc. Representa um reconhecimento do meu país à minha criação e ao que posso fazer para ajudar. Fiquei absolutamente maravilhado, encantado com tudo que vi e ouvi no Femusc. Desde as criancinhas, tocando de maneira comovedora, séria e surpreendente, até os quartetos de cordas, os conjuntos de percussão, sopros, metais, percussão, uma verdadeira Festa da Música Brasileira.
O Alex Klein, com a experiência na Chicago Symphony, tem na veia e no espírito o verdadeiro sentido da elevada carga emocional da música, sobretudo a responsabilidade de fazer o melhor possível. O nível de exigência dos ensaios de Alex Klein, que presenciei na preparação de minha obra, é de uma minuciosidade incrível, jamais satisfeito com uma solução boa, querendo sempre a solução melhor. Não existe a palavra cansaço, nem meios termos. O ideal perseguido por Klein é a perfeição, tem em seu DNA musical e em seu espírito de grande músico.
